domingo, 7 de junho de 2009

Tristeza infinita

Na sexta à noite morreu o filho do meu cunhado, enteado da minha irmã. Ele foi baleado em um assalto sem sequer reagir. Os bandidos atiraram antes deles saírem do carro e miraram também na jornalista que tava com ele. Felizmente, ela escapou.

A história toda já foi contada pelo Mendonça, não preciso repetir. O que só eu sei é como estou me sentindo. Eu que tinha indicado ele para a vaga de motorista na minha ex-repartição. Ele tinha 21 anos e até então trabalhava na loja do tio, nunca tinha tido emprego "de verdade", ainda não tinha nem carteira de trabalho. Tava todo orgulhoso, comprou camisas de botão novas pra ir trabalhar. Não recebeu nem o primeiro salário, com o qual ele pretendia dar um churrasco pros amigos pra comemorar o emprego, pagar as contas e dar o restante pra mãe.

Agora ele tá morto e enterrado e eu me sinto culpada. Eu sei que não tenho culpa, que foi uma tragédia aleatória, como tantas outras. Sei que o caso dele não é diferente dos outros baleados em assaltos que vi chegar no hospital enquanto esperava notícias dele. Racionalmente, sei que é simplesmente uma questão de sorte ou azar. Como sou agnóstica e não acredito em deus, destino, alma, espírito, desígnios divinos, sei que é simplesmente, meramente, sorte ou azar, por mais duro que isso pareça. Não vou fingir que acredito que "era o destino", "era a hora dele", "ele foi pra um lugar melhor", "foi a vontade de Deus", "Deus sabe o que faz", "ele está na paz infinita" ou sei lá o que das frases que me ouvi. Sei que todos queriam me confortar. Sei que é muito menos dolorido acreditar nisso. Mas, infelizmente, isso não é pra mim. Ele simplesmente não vive mais e o lugar pra onde ele foi é pra baixo da terra, se decompondo em um caixão frio.

Sei perfeitamente que ele deu azar de passar ali naquela hora. Sou muito prática e racional, afinal, não acredito em Deus porque não faz sentido e não é explicável. Mas sou gente que nem todo mundo e gente também não faz sentido. Apesar de saber de tudo, emocionalmente não consigo deixar de me sentir responsável. De pensar que eu não tinha nada que ter me metido na vida dele. Não consigo deixar de pensar que preferia ele desempregado e vivo. Não esqueço do sorriso dele no almoço do dia das mães me agradecendo a oportunidade.

Eu sei que minha dor não se compara à do pai, da mãe, da irmã, dos tios, dos avós, da bisavó dele e até da madrasta, a minha irmã. Mas só eu sei como estou me sentindo. Meu rosto já tá machucado de tanto chorar e não consigo parar. Não consigo parar de pensar no sorriso dele de aparelho nos dentes. Não consigo parar de pensar que se eu não tivesse me metido na vida dele, hoje provavelmente ele estivesse vivo. Não consigo parar de pensar que agora não existe nada que eu possa fazer, que não tem como voltar atrás, que eu tô viva e ele tá morto.

Sei que ninguém prometeu que o mundo seria justo e que realmente não é, mas não consigo me conformar que ele tá morto e eu tô viva. Não consigo deixar de me sentir culpada.

6 comentários:

Eugenia disse...

amiga,
se ele estivesse desempregado tb poderia ter morrido, de uma outra forma. ñ de um assalto a carro, já q ele ñ estaria num carro, mas de milhares de outras formas.
não se culpe MESMO.

Thais disse...

Oi Rô, imagino o sentimento de tristeza e culpa e o peso nas costas. Mas não se culpe. Uma vez, o Rei Salomão disse que o "tempo e o imprevisto sobrevêem a todos". Mas sei que não há nada que qualquer pessoa fale que vai tirar esse sentimento de você. Apenas sei que você vai ter que passar por isso. Um dia passa.
Beijos e te espero em sampa!
Thais Gama

Ana disse...

Caralho....:-/
João tá mandando um miau bem João pra vc, com aqueles olhos bem grandões dele.
E eu tb, pq falar nessa hora não presta.
Beijo

*Ta* disse...

Nada do que a gente disser agora vai servir como consolo... só sei que chorei ao ler o seu texto... e gostaria de dizer, assim como já foi dito aqui, q vc não deve se sentir culpada...

Força !

Anônimo disse...

Ele tinha cumprido sua missão aqui neste plano e realmente era a hora dele seguir, de uma forma ou outra ele ía partir .. não se culpe .. "Deus sem nós continua sendo Deus, mas nós sem ele não somos nada"
Cuide-se!
abraços da leitora

Anônimo disse...

Ele tinha cumprido sua missão aqui neste plano e realmente era a hora dele seguir, de uma forma ou outra ele ía partir .. não se culpe .. "Deus sem nós continua sendo Deus, mas nós sem ele não somos nada"
Cuide-se!
abraços da leitora