quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Reflexões

Hoje, após ir a três farmácias bunda, finalmente encontrei meu Dove Invisible Dry pra lá da Praça da Cruz Vermelha. Eu havia acordado determinada a manter o bom humor e até fiquei feliz por não ter que andar mais ainda e estar em frente ao ponto de ônibus. Olha que sorte, lá vem o 362 xexelento e fedido! Nem vou esperar muito em companhia da choldra.

Sabe, chamo carinhosamente o coletivo que me leva à repartição de "bonde do hospital". É que nas imediações Praça da Cruz Vermelha existem uns quatro hospitais e ele ainda para em mais uns dois pelo caminho. O horário que pego coincide justamente com o que os velhos psicopatas que madrugam nos hospitais já estão saindo. Às vezes vão conversando sobre doenças e remédios durante o trajeto e, não raro, brigam pra dar uma animada na vida. Manjou? Pois é, delícia.

Normalmente entro no ônibus antes, mas hoje chafurdei no fervo do ponto da praça. Como sou moça phyna, deixei aquela gente suja, maltrapilha e mal educada entrar primeiro. Continuava com sorte, consegui um lugar na janela do banco alto. Me acomodei e aspergi meu desodorante nas axilas. Ninguém reparou. Se reparasse também eu educadamente diria "tá olhando o que, porra?", mas não foi necessário.

A viagem tava quase tediosa, não tinha ninguém fedendo, cantando ou brigando. Eu até podia pensar na vida ou fazer mentalmente a lista de tarefas do dia ou de compras. Tava, podia. Quando parou no pronto mais próximo da Rodoviária Novo Rio fui abruptamente resgatada dos meus pensamentos por um alarido, sabe aquele falatório de gente mal educada? Pois é. Olhei e enquanto dois rapazes negros fortões subiam várias malas, sacolas, caixas e até um carrinho de bebê pela porta traseira (que hoje em dia é no meio do ônibus) o restante da família entrava se acotovelando e reclamando. Não contei, mas vi uma senhora, a matriarca que coordenava a ação, duas mulheres, uma matilha de crionças e até o tal bebê provavelmente usuário do carrinho. Como obviamente não havia lugares próximos para todos, se esparalharam pelo ônibus, enquanto os dois homens "arrumavam" a tranqueira naquele espaço reservado eventual passageiro cadeirante. Acomodados (ou nem tanto), discutiam sei lá o que entre si e nos seus celulares.

Fiquei pensando se vinham de viagem e andaram da rodoviária até ali ou se estavam fazendo a mudança de ônibus. Sabe, nem odiei eles, até me compadeci. Em outros dias teria fantasiado matar todos com as próprias mãos, começando - obviamente - pelas crianças, para que seus pais soubessem que elas tavam morrendo por culpa deles, por eles serem mal educados e terem me incomodado. A última a morrer seria a matriarca. Talvez, já cansada ou pela proximidade do ponto onde desço, eu até desse a ela uma morte rápida. Isso seria o normal e o justo, afinal, não mato ninguém mas tenho todo direito de fantasiar matar quem eu quiser e bem entender, com quaisquer requintes de crueldade e quantas vezes por dia eu quiser. Não é errado ser assim e não aumenta a alíquota do imposto de renda. Seria justo e normal, mas hoje nem pensei nisso. Pensei apenas que deve ser uma merda fazer mudança de ônibus.

Depois fiquei pensando na esquisitice da minha conclusão, reparando em tudo e pensando apenas "que merda". Sabe, eles tão no lugar deles. Fazem mudança de ônibus e não acham nada de mais, apenas talvez um pouco cansativo. A "errada" sou eu, eu que não tinha que estar naquele coletivo partilhando o cotidiano com eles. A fodida nesta história sou eu, que trabalho num matagal incrustado num mar de favelas na putaquiupariu, onde se tem acesso pr meio de coletivos imundos. Eu que tenho que mudar de emprego. Eu que tenho que mudar minha vida.

11 comentários:

Anônimo disse...

hahaha. vai ver q foi por isso q sua amiga disse q vc estava se tornando uma "pessoa melhor", né!

Fulana disse...

é tão bom quando seu blog ta assim, cheio de postagens! essa ta completamente "Roberta Carvalho". faço votos que outra repartição melhor surja pra vc!

Anônimo disse...

NOsssa, rachei de rir com essa postagem! Muito boa! Eu também surto com o povo 'xexelento' que enche o saco no ônibus. Pior são os fdp que insistem em ouvir música alta, sempre com o pior gosto possível!
Eu prefiro ser feliz a ser uma pessoa melhor...porque ser uma pessoa melhor enche muito o saco rs

Nayara disse...

Mas pq vc não tem um carro Roberta? Vc é super bem sucedida, toda bonitona e estilosa. Merece um carrinhu =)

Roberta disse...

Anônimo, talvez.

Fulana, tenho muitos planos para 2012. Tb me achei completamente Roberta Carvalho hj. Quer saber? Tava com saudade de mim mesma.

Anônimo, eu não tenho carimbos de "Bom gosto" e "Mau gosto", sei do que gosto ou não. Só que mesmo que fosse minha música favorita, seria falta de educação obrigar os outros a ouvir tb. Preciso contar de outro dia que havia umas evangélicas no ônibus que pensavam que eram cantoras líricas. Educação/noção zero!

Nayara, não dirijo, querida. Ainda não ganho bem o suficiente para ir de táxi todos os dias pra a repartição.

Ah, e nem sou tão bem sucedida assim não.

Anônimo disse...

Robertinha, esse post foi muito bom. De alto nível literário, parecia que estava lendo o livro de um dos nossos mestres do romance. Claro que não é um Nelson Rodrigues, mas chegou ali bem perto. Acredite.

Nayara disse...

Pois para mim vc é diva, viu linda?

Anônimo disse...

Caraca, só uma crônica dessas pra me arrancar um sorriso nesta merda de semana que se arrasta...

Anônimo disse...

uouuu...Adorrei...Que consigamos arrumar trabalhos melhores: URGENTE! hahahaha
Seu blog é sempre ótimo.
Bjooo

Joana disse...

Como eu nao dirijo? Aprende ué! Faz Auto-escola e tira a carteira!!! Do carro vc dá conta!

Ana Celia disse...

kkkkkkk, menina vc é muito louca, que bom que não sou apenas eu que passo por essas situações e tenho esse tipo de pensamento. Mas vc é bem melhor, sabe ser ranzinza, chata e passar isso com uma ironia do caramba, adorei!